Em outubro de 2006, a Universidade Normal de Pequim concedeu o título de Professor Honorário a Daisaku Ikeda. Poderia soar como fato simples, se não fosse a 200ª homenagem concedida por instituições acadêmicas em reconhecimento aos seus esforços para promover intercâmbios culturais visando a paz.
Nascido em Tóquio, Japão, em 2 de janeiro de 1928, de uma família pobre que ganhava a vida plantando e colhendo algas marinhas, era o quinto filho entre oito irmãos. Em sua infância e adolescência, conviveu em meio a duas realidades marcantes: uma saúde frágil e os horrores da guerra. Tinha apenas 11 anos quando irrompeu a Segunda Guerra Mundial. Aos poucos, um a um, seus quatro irmãos mais velhos foram convocados para o front, sendo que o mais velho faleceu em combate na Birmânia em janeiro de 1945.
Ikeda teve então de assumir maiores responsabilidades dentro de casa, ajudando também a cuidar dos irmãos mais novos e a comprar alimentos. Nos bombardeios em Tóquio, sua casa foi incendiada. Trabalhava numa fábrica de armamentos, sofria de tuberculose pulmonar, e os médicos não garantiam que chegaria aos 30 anos de idade.
Quando a Segunda Guerra terminou, Ikeda era um jovem de 19 anos em busca de um sentido para sua existência num Japão devastado. Encontrou na filosofia humanista de Nitiren Daishonin e na visão de mundo do educador Jossei Toda a resposta para seus questionamentos. As marcas dos horrores que presenciou durante a guerra fizeram-no um guerreiro defensor pela paz. Liderou grupos para o resgate de cidadania de um povo marcado pelo sofrimento e perda e depois ampliou a atuação pelo mundo, levando sua filosofia de vida a países fora do Japão. Em 1960 seguiu para os EUA e ao Brasil. Após sete anos, quando propôs a normalização das relações sino-japonesa, engajou-se ativamente na elaboração e publicação de propostas, dirigidas às Nações Unidas, tratando de questões sobre a paz, desarmamento, educação e meio ambiente.
Decidiu pela influência do diálogo na defesa dos direitos humanos
e em janeiro de 1975 criou a Soka Gakkai Internacional (SGI), uma organização
não governamental, filiando-se à ONU. Ao lado de iniciativas de
apoio a esse órgão, anualmente, na data de 26 de janeiro, encaminha
sua proposta de paz, com sugestões para fazer frente aos desafios da humanidade.
A nova era do povo - Uma rede mundial de indivíduos conscientes e fortesé
o título da proposta deste ano, em comemoração ao 31º
aniversário da SGI, hoje presente em mais de 200 países e territórios,
inclusive no Brasil, exercendo sua atuação baseada no tripé
paz, cultura e educação.
A SGI promove intercâmbios culturais e busca desenvolver os valores comuns, tais como a tolerância e a coexistência, que estão presentes de formas diferentes em todas as culturas e tradições, raças e religiões. Essas atividades têm por base a premissa de que o senso comum de humanismo está fortalecido por meio de interações diretas com pessoas de diferentes culturas, mesmo que suas experiências e convicções sejam totalmente opostas. No cerne, o estímulo ao resgate do direito fundamental de cultivar o autodesenvolvimento, por meio de uma reforma interior, chamada revolução humana.
Ikeda fundou, através dos anos, instituições educacionais e culturais, como a Universidade Soka, no Japão e EUA, a Associação de Concertos Min-On e Museu de Arte Fuji de Tóquio. Para promover o diálogo entre acadêmicos e ativistas de valores comuns, fundou o Centro de Pesquisas para o Século XXI de Boston, entre outros.
Por meio da educação e da cultura, ele acredita que a guerra se
inicia no coração do homem e é nele que se deve buscar
a paz. A paz, para Ikeda, não é apenas a ausência de guerras
e conflitos, mas representa uma condição da sociedade na qual
a dignidade e os direitos do indivíduo são respeitados plenamente,
e por isso realiza intensos diálogos com pensadores, personalidades,
humanistas e autoridades de diferentes áreas do conhecimento. Filósofo,
pacifista, poeta e escritor, suas obras foram traduzidas para mais de vinte
idiomas. Alguns já foram publicados no Brasil, como: A noite clama pela
alvorada , com René Huyghe; Escolha a vida, com Amold Toynbee; Antes
que seja tarde demais , com Aurélio Peccei ( Editora Record); Diálogo
sobre a juventude _ para os protagonistas do século XXI , Sabedoria na
Saúde, Envelhecendo na sociedade contemporânea, Diálogo
sobre a Juventude , Valores humanos num mundo em mutação (com
Bryan Wilson) e mais recentemente Cidadania Planetária, em diálogo
com Hazel Henderson.