
O advogado como viabilizador da Sustentabilidade
Gleice da Silva Marote Rodrigues
Nos últimos tempos, em especial nos últimos dois ou três anos, muito tem se falado sobre sustentabilidade. Mas o que é a chamada sustentabilidade e o que o advogado tem a ver com isso?
Sustentabilidade vem do conceito de “Desenvolvimento Sustentável”, que tem como principal definição a proferida na Comissão de Brutland: “Desenvolvimento Sustentável é aquele capaz de atender as necessidades da geração presente sem comprometer o atendimento das necessidades das gerações futuras.”
Ao olharmos para este conceito, muitas vezes pensamos: mas o que eu tenho a ver com isso? Este tipo de preocupação é para os advogados ambientalistas ou “eco-chatos” que têm começado a proliferar por aí, com discursos lunáticos e utópicos e não há nada que eu possa fazer no meu dia-a-dia para ajudá-los... se é que concordo com o que dizem...
Quando não investimos um tempo para analisar como a sustentabilidade impacta nossas vidas, realmente tendemos a colocar a responsabilidade de nossa vida nas mãos dos outros, do tipo, quem tem mais tempo, que faça!
Mas, sustentabilidade, mais do que ter a ver com o futuro do planeta, diz respeito ao nosso futuro. O planeta Terra poderá subsistir independentemente de todas as mudanças climáticas e tragédias que temos acompanhado diariamente na televisão, rádio, internet ou jornais. Quem não poderá sobreviver a tudo isso, somos nós, seres humanos.
E enquanto nos sentirmos como os seres mais inteligentes do mundo, capazes de fazer e desfazer, à parte do restante da natureza, como seus dominadores, não nos damos conta de que somos nós, seres humanos, que dependemos dela. Afinal de contas, qual de nós é capaz de reconstruí-la? De devolvê-la ao status quo?
Na realidade, somos todos interdependentes. Nessas relações, nenhuma ação é tomada sem que haja impacto e reações de diversos “stakeholders”, muitas vezes inimagináveis à primeira vista.
Façamos um pequeno exercício, agora, em nosso papel de advogados. O que um processo, uma ação judicial cível, criminal ou trabalhista... não importa de que ramo do direito estejamos tratando, tem a ver com o meio ambiente?
Por favor, não continue a ler. Reflita por uns 10 segundos...
Provavelmente, sua resposta foi nada, ou para alguns que já tiveram a oportunidade de pensar sobre o tema, a resposta foi... o papel!
Claro... o papel que uso nos processos fez árvores serem derrubadas, na maioria das vezes, sem garantia de que seriam plantadas novamente e, provavelmente, este papel, ao final do processo, foi... incinerado! Sim, incinerado, ou ainda está lá, ocupando espaço, em algum lugar, que poderia estar sendo utilizado para outra finalidade. Reciclagem??? Nem passou pela cabeça, ou talvez tenha passado, mas e os riscos?
Voltando ao uso deste tal lugar, que impactos percebemos? Para quais finalidades, locais enormes, que abrigam toneladas e toneladas de papéis, poderiam estar sendo usados? O que isso tem a ver com o social? Isso sem falar no impacto que uma ação judicial causa na vida dos indivíduos, esteja ele exercendo o papel de Autor, Réu, Reclamante, Preposto, Testemunha...
Antes de tudo, não podemos, caros colegas, nos esquecer que somos pessoas, pessoas dotadas de pensamentos, sentimentos, valores, atitudes e que impactamos e estamos sendo atingidos a todo tempo por nossas ações e pelas de quem está à nossa volta.
E o que isso tem a ver com ética? O que isso tem a ver com a sustentabilidade do papel do advogado? Você já se imaginou exercendo sua profissão, na mesma área, no mesmo local, com os mesmos clientes, mas de um modo totalmente diferente?
Já se imaginou pensando em todos os impactos que causa e tomando ações para atenuá-los?
Isso te incomodou? É sobre isso que queremos refletir e discutir nas Oficinas de Sustentabilidade promovidas pela Comissão de Responsabilidade Social da OAB/SP, em parceria com o Banco Real. Se você se incomoda, se você quer pensar sobre como fazer as coisas de uma maneira diferente, junte-se a nós!
Não temos todas as respostas, mas não temos medo das perguntas.
* Gleice da Silva Marote Rodrigues é advogada, especialista em processo civil pela PUC/SP, membro-efetiva da Comissão de Responsabilidade Social da OAB/SP, gerente jurídica da Área de Sustentabilidade & Prevenção do Banco Real, Grupo Santander.

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