| Vontade, tônica da transformação
Por Valtina Alice Pizolato*
Descobri na pele que o movimento popular move montanhas, ou melhor, edifica
montanhas. E foi assim que aconteceu em São Mateus, bairro localizado
no extremo leste de São Paulo, onde moram 400 mil pessoas, 10%
delas em favelas. Milhares de habitantes vivem em condição
de pobreza, ocupando áreas de risco e com situações
sociais graves.
Mas era muito pior. Há cerca de 40 anos o bairro era ermo, violento,
as ruas não tinham asfalto e quando chovia era impossível
sair de casa. Só havia comércio na Avenida Mateo Bei e para
comprar um pão sequer, precisávamos caminhar por 20 minutos!
Sempre tivemos consciência comunitária; um vizinho emprestava
a luz e a caixa de água da minha casa abastecia as casas da rua.
Mas as coisas começaram a mudar quando nos organizamos em movimentos
populares e passamos a cobrar da Prefeitura os serviços de urbanização.
Não havia organização associativa legalizada, com
papéis. Apenas um grupo de pessoas católicas, da mesma paróquia,
que se uniu em torno de uma vontade, atuar para construir uma comunidade
esquecida, abandonada. Fazíamos abaixo assinados, formávamos
comissões para ir à prefeitura e, em três anos, conseguimos
asfaltamento de 27 ruas e toda a rede de água e luz. Hoje São
Mateus tem 10 bancos, escolas, centros educacionais comunitários,
o Hospital Sapopemba. Tudo conquistado com luta.
Na década de 80 tornei-me voluntária. Trabalhava em uma
igreja com grupos de mães da favela Maria Cursi, uma das dezenas
de São Mateus, e as ensinava a fazer bordado para venderem e complementarem
a renda da família. Mas sentíamos a necessidade de cuidar
dos filhos dessas mulheres, que ficavam nas ruas enquanto as mães
trabalhavam.
O arcebispo de Mariana (MG) Dom Luciano Mendes de Almeida, que faleceu
neste ano, participava deste trabalho com as mães e partilhou conosco
a preocupação. Mobilizamos as pessoas que tinham compromisso
com a comunidade e conseguimos criar em 1981 o C.E.C Maria Cursi, um Centro
Educacional Comunitário, que faz parte da ONG Centro Social Nossa
Senhora do Bom Parto.
A prefeitura deu o terreno e construímos o barracão, apenas
com cimento que nos foi doado e blocos que conseguimos vendendo bordados,
rifas, bolos, pudins, roupas que eram doadas.... E o que mais houvesse
para vender! E atendíamos as crianças com atividades sócio-educativas
e alimentação, por meio período.
O local ficou pequeno para tanta gente! E a Ford, a partir de Convênio
com o Centro Social, comprou um outro terreno, onde estamos até
hoje e já atendemos 1262 crianças, muitas que já
são mães e pais! Fui contratada pela ONG e sou coordenadora
do C.E.C Maria Cursi há 20 anos.
Cada qual com sua função, muitos na comunidade continuam
atuantes. Minha forma de participação se consolidou no convívio
com as crianças. E em cada ação do C.E.C, procuro
mostrar aos “filhos da comunidade”, que são eles que
devem zelar por cada um de seus cantos. Basta ter vontade,organização
e união.
Valtina Alice Pizolato é líder comunitária
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