Educação e Comunicação, união perfeita

Na série especial do centenário de Paulo Freire, seguimos desta vez destacando a jornada que vem sendo construída pelo professor Adriano Medeiros Costa em mais de 20 anos na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). E com um currículo acadêmico inspirador, suas considerações transformam-se aqui numa verdadeira e leve aula, permeando a sinérgica atenção que deu à Comunicação e Educação, de braços dados no estreitamento da distância entre teoria e prática da pedagogia emancipadora.

Como Paulo Freire nos ensinou, a profissão de professor é movida por uma esperança: a de que o ser humano é capaz de se aperfeiçoar.” Adriano Medeiros Costa, jornalista, com Especialização, Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado em Educação.

Seguem abaixo trechos da entrevista que concedeu prontamente à Cultura de paz, abordando sua trajetória e iluminando a vida e obra de Paulo Freire.  Ao final do texto, uma inspiração para quem também deseja beber desta fonte.

 Cultura de paz — Fale um pouco de sua jornada acadêmica e como chegou até Paulo Freire.

Professor Adriano — No ano 2000 quando eu ainda era aluno de graduação em Jornalismo (UFRN), li no Le Monde Diplomatique uma frase de Bernard Cassen (na época diretor geral da publicação) que me impactou muito. Ele escreveu: “o jornalista é como um professor, só que tem mais alunos”. Na época, esta frase caiu como uma luva porque eu já estava pensando em fazer, como de fato fiz, pós-graduação em Educação tanto porque a área me encantou, como também porque eu queria seguir carreira acadêmica. Assim sendo, depois da graduação, graças as portas que abri e graças as portas que me foram abertas fiz em sequência os cursos de Especialização, Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado. Todos em Educação. Aliás, acrescento que já sendo doutorando em educação, fui cursar a graduação em Pedagogia porque considerei que isso seria literalmente fundamental para minha formação. Em cada um desses cursos pude comprovar que a comunicação e a educação são duas áreas que dependem uma da outra. Aliás, cada qual não existe sem a outra.

Sempre que verdadeiramente estamos nos comunicando, também estamos nos educando ao mesmo tempo e sem comunicação não é possível a existência de um real processo educativo emancipador.  Além disso, enquanto professor de Comunicação Social, a vantagem de se ter formação em Comunicação e Educação é que eu estou sempre muito interessado por questões relativas à didática nos conteúdos que ministro. Pois, acredito que todos podem aprender tudo, desde que tais conteúdos sejam explicados de forma progressiva, adequada e, quando possível, contextualizada. Inclusive, creio que as perguntas que seus alunos fazem são o ponto de partida da didática de um professor.

Eu sei que existem médicos heroicos, mas não são raros aqueles que acreditam que o que estragam os hospitais são os pacientes. Infelizmente há professores, sobretudo os de nível superior, que pensam que o que estragam as instituições de ensino são os alunos. Se eles não existissem, não haveria nada quebrado, sujo ou barulhento. No caso específico das universidades parece existir uma concordância institucional com essa premissa porque se você observar, o investimento em pesquisa recebe bem mais atenção do que o ensino. É frequente que um professor seja obrigado a dar cada vez mais aulas, mas é bem raro que existam estímulos para este fim. Não que a pesquisa e a extensão não sejam importantes, mas imagine como seria uma instituição de ensino qualquer se não fossem os alunos?! Seriam cenários como no livro ou do filme homônimo “Eu sou a lenda”. Os alunos são a razão de ser das instituições educacionais. Elas só existem porque eles existem.

 

Cultura de paz —  Como se dá a utilização da obra de Paulo Freire nas disciplinas que oferece? E quais reflexos são possíveis observar nos alunos com a leitura e criticidade, já que são jornalistas em formação

Professor Adriano — Quando eu fui aluno de Jornalismo, não tive acesso ao livro “Extensão ou comunicação?” de Paulo Freire. Acredito que no país são muito raros os alunos têm esse contato. Isso é triste, porque representa uma deficiência na formação. Já sendo professor, eu me vali da condição de poder conversar entre pares, para tentar saber a razão. Há de tudo, desde falta de conhecimento mesmo sobre o autor; bem como passando por preconceitos estúpidos como quem justifica dizendo que Freire era educador e não “comunicador” (como se em Pedagogia ninguém ligasse para Jean Piaget apenas porque ele foi psicólogo e não pedagogo). De fato, a verdadeira razão é mais obscura: Sabemos que é muito mais fácil para a maioria das pessoas reproduzir simplesmente um modelo já conhecido do que contestá-lo.

A disciplina que ofereço no curso de Jornalismo se chama “Comunicação e Educação” e é optativa. Se o lado negativo está na razão óbvia de não ser obrigatória, o lado positivo disso é que essa condição permite que venham cursá-la enquanto disciplina complementar alunos de outros cursos, sobretudo, de Pedagogia. O que enriquece a experiência. Pois, acho que de tudo o que Paulo Freire produziu, o estudo do conceito de comunicação não é necessariamente uma prioridade nos cursos que formam pedagogos. Então, creio que os dois públicos ganham. Geralmente todas as 40 vagas oferecidas são preenchidas. Tenho até um ou outro caso de ex-alunos que, logo após Jornalismo, foram cursar Pedagogia e um outro que foi fazer pós-graduação em Educação porque Paulo Freire continua o que sempre foi: intelectualmente sedutor e emancipador.

Nas aulas nós nos detemos muito na análise da obra “Extensão ou comunicação?” que, embora não seja muito grande, permite fazer diversas análises contextuais com o campo da comunicação. Outro autor importante é Celéstin Freinet, sobretudo o que ele tem a dizer sobre Imprensa escolar. Inclusive, certa vez ao receber uma homenagem do Grupo de Educadores Freinet da PUC/SP, Freire declarou: “Eu e Freinet somos primos”. Tal o nível de convergência prático-teórica de ambos.

Sempre que possível, também realizo projetos de extensão nos quais meus alunos (os quais enquanto discentes de jornalismo e representantes de seu próprio tempo sabem tudo de mídias) ministram oficinas nas quais professores da rede pública do ensino fundamental aqui de Natal aprendem a fazer fanzines impressos, blogs, podcasts que possam servir como rádio escolar e vídeos para o Youtube. Muitos desses alunos nunca deram uma aula de verdade na vida e se entusiasmam com a experiência. Pois, nem desconfiavam que o conhecimento deles poderia ser tão importante para alguém.

Cultura de paz – Como eternizar o legado de Paulo Freire e sua importância na Educação atual.

Professor Adriano — No geral, a educação é tão revolucionária que quanto mais puder ser oferecida, melhor será. Mas, especificamente, eu costumo dizer aos meus alunos que minha vida mudou completamente quando conheci o conceito que Paulo Freire dá a comunicação que pode ser mais ou menos resumido quando ele diz “O sujeito pensante não pode pensar sozinho; não pode pensar sem a coparticipação de outros sujeitos no ato de pensar sobre o objeto. Não há um ‘penso’, mas um ‘pensamos’. É o ‘pensamos’ que estabelece o ‘penso’ e não o contrário. Esta coparticipação dos sujeitos no ato de pensar se dá na comunicação”.  (FREIRE, 1988, p. 66 e 67).

Eu digo aos alunos que a compreensão e o exercício desse princípio (me refiro a práxis) resolvem todos os problemas advindos da ausência de comunicação: desde guerras, passando por notícias falsas e, brinco, até briga de namorados.  Pois, como Freire nos ensinou, comunicar-se não é buscar o consenso ou impor ao outro sua opinião e concepção de mundo. Bem como não é apelar para a sedução e a manipulação como fazem as mensagens publicitárias. Não é se comunicar fazer uso da retórica e da demagogia como fazem os políticos, usar argumentos de autoridade como fazem os profissionais em muitas áreas. Assim como fazer uso do proselitismo e da doutrinação religiosa como fazem os padres e os pastores. Muito menos o exercício de sofismar que não raramente aparece como sendo a liberdade de noticiar dos meios de imprensa.

Minha esperança é que tenha significado para eles o que aprenderam comigo a ponto de tentar pôr os princípios em prática. Bem como também fazer com que tais jovens, quando forem profissionais adultos, tenham um olhar maduro para a educação que vá além do velho discurso hipócrita e de senso comum que sempre diz que se deve valorizar a educação…mas não valoriza na prática. Mas, afinal, como Paulo Freire nos ensinou, a profissão de professor é movida por uma esperança: a de que o ser humano é capaz de se aperfeiçoar.

 


Curso
– Quem deseja estudar sobre esse educador, orgulho brasileiro da educação humanizada, confira o curso “Como alfabetizar com Paulo Freire”, online, que começa em abril e vai até maio, acesso democrático de estudo do alto alcance dessa pedagogia. Deixamos o link a seguir. Na celebração do centenário de Paulo Freire, registre um marco também na sua vida.

Acesse o site e confira: www.eadfreiriana.org/curso-cacpf-2021

Curso ‘Como alfabetizar com Paulo Freire’
Módulo 1 – 5 a 21 de abril
Módulo 2 – 4 a 28 de maio
Acesso à plataforma até 28 de agosto

Por Gleice Carvalho