Nenhum a menos, nenhum de fora

 Caminhos do ideal e prática da pedagogia de Paulo Freire

Na série especial do centenário de Paulo Freire, iniciamos com a vivência de uma educadora e sua trajetória em vários círculos de pesquisa e aplicação da pedagogia Freiriana.  Ao final, uma inspiração para quem também deseja beber desta fonte.

Há muitas citações que parecem bonitas e o são, mas vai muito mais além do que a beleza das palavras, Elas possuem vida e contexto, precisam ser estudadas.” Alessandra Rodrigues, pedagoga e mestre em Educação

 Envolvimento, amorosidade e encantamento são palavras chave decifradas como caminhos, trilhas seguras da educação humanizadora de Paulo Freire. Assim é a trajetória que vem sendo vivenciada por Alessandra Rodrigues, 43 anos, mãe de duas filhas, 11 e 8 anos, que fez pedagogia por curiosidade e nunca mais parou de pesquisar: estudar para compreender.  “O contato com a pedagogia de Paulo Freire me permitiu refletir sobre o papel do professor, e a máxima da prática ação-reflexão-ação, onde nunca se aprende sozinho. Tudo é uma troca constante, cumplicidade e humildade”, ressalta Alessandra, que desafiou depois o mestrado em Educação, em meio ao desafio da gravidez da caçula.

Por quatro anos, circulou por projetos e atuação na educação infantil, formação de educadores, gestores escolares e protagonismo juvenil no Instituto Paulo Freire e desde 2015 sua vida voltou-se ao ponto primordial da sua formação: a sala de aula, orgulhosa que está de sua turminha do 5º ano do ensino Fundamental, na região da Brasilândia, crianças de idade entre 10 e 11 anos, fase dourada das descobertas. “Mesmo com a pandemia conseguimos estabelecer parceria com pais e fechamos 2020 com uma live na qual todos estavam bastante emocionados, e felizes. Construir uma relação de cumplicidade que eleve o lema de “nenhum a menos, nenhum de fora”, consolida a especialista.

Empoderamento real

O educador tem uma oportunidade de ouro para trazer a pedagogia Freiriana e seus princípios para a realidade do ensino em sala de aula. É compreender que os estudantes são sujeitos que têm trajetória e, portanto, suas práticas devem estar baseadas nos objetivos desses sujeitos. “Cabe a nós parar e refletir: quem são meus estudantes? E daí encontrar formas de trazer o ensino para a realidade deles.”

E como eixos, Alessandra relata sua experiência construída no ensino Fundamental e também a Educação de Jovens e Adultos. Destacamos alguns pontos da conversa com Alessandra:

 Diálogo

Partindo do princípio de que os educandos são sujeitos autônomos, o diálogo está presente em todos os momentos. Um ambiente para leitura do mundo real com as crianças, tornando-as parte do processo de aprendizagem.

Você tem animal de estimação? Com uma simples pergunta abrem-se janelas de oportunidades, pelas quais se torna possível sentir o olhar e desenhar o perfil de cada uma. E nessa interação, elementos de seus gostos e personalidades são revelados, e também todos aprendem a se relacionar com os outros. Um ciclo virtuoso que se converte em poderoso insumo para que o educador reflita e transforme em novas práticas, novas abordagens e conhecimentos para os estudantes.

“Se o professor se colocar nessa posição, de abrir espaço para que cenários como esses se desenvolvam, e crie ou recrie práticas de apoio pedagógico para estimular esse desenvolvimento, creio estar vivenciando o ideal de Freire.”

De todos e para todos

Decisões tomadas coletivamente respaldam o processo democratizador da proposta. Algumas práticas, como a de estabelecer o “combinado” ou o “contrato” como são chamadas, momento em que todos decidem como e devem ser tratadas as questões em sala. “As crianças se sentem corresponsáveis, são chamadas ao que foi consensado por elas também e, desta forma, conquistam maior autonomia e comprometimento. E pelo compromisso assumido livremente exerce papel essencial na harmonia”.

Conexão e parceria

Práticas enraizadas de que o professor ensina e o estudante aprende, simplesmente, se desconstroem em benefício da educação. Assim, garantir espaço para que seja uma via de mão dupla, na qual as crianças tragam ideias, possam repassar o que já estudaram e a partir daí ser estabelecida parceria com o educador e juntos crescerem. “O professor precisa refletir sobre sua prática, constantemente. Antes de ser perguntar porque meu estudante não entendeu o que ensinei, refletir sobre o que deve ser mudado no processo de ensino para que ele absorva plenamente.”

A sala de aula é um campo fértil, e Paulo Freire norteou sua pedagogia centrada nessas infinitas possibilidades de parceria professor-estudante.

Respeito e valorização

Na educação de jovens e adultos, Alessandra fala de carteirinha. Por quatro anos, coordenou área no Instituto Paulo Freire, desde o Mova Brasil e sua atuação em nove estados do país. E há quatro anos, combinando suas atividades em sala de aula atua no atendimento de jovens em situação de rua. “É um trabalho gratificante, pois tenho tido a oportunidade de ver jovens voltando para a escola, exercendo seu direito cidadão”.

A educação é ao longo da vida, então se faz necessário valorizar a experiência do educando, suas vivências e expectativas e a partir disso criar conexão com o aprendizado. Eles precisam de estímulo e respeito por suas histórias de vida, sem julgamentos. E cabe ao educador apoiar numa leitura de mundo e perspectiva de ocupação de seu espaço social, trazendo deste núcleo suas contribuições, ancorando problematização e acolhimento, reflexão e apropriação. “O mergulho em sua vida, suas crenças e seu mundo são primordiais. Tenho trabalhado muito com as histórias de vida que é um campo fértil de aprendizagem. Nós lidamos com vidas, e nesse processo nos conectamos com saberes próprios de cada um deles, e uma troca carregada de novos conteúdos”. Uma visão real da educação emancipadora.

Além das citações

Um dos aspectos mais relevantes da aplicação da metodologia de Freire talvez seja o de romper com a fragilidade dos que apenas copiam e colam suas citações, imaginando assim entender sua essência. Paulo Freire construiu uma concepção de vida, norteada pela busca do diálogo, da aproximação e do respeito. Aqui estamos falando de um modelo de ensino amoroso, solidário, concreto e justo.  “Precisamos criar espaços de discussão. Pensar e agir com conteúdo e essência. Trata-se de uma postura que não é neutra, permeia sentimentos e visão de mundo. Há muitas citações que parecem bonitas e o são, mas vai muito mais além do que a beleza das palavras, elas possuem vida e contexto, precisam ser estudadas.”


Curso
– Quem deseja beber dessa fonte, orgulho brasileiro da educação humanizada, confira o curso “Como alfabetizar com Paulo Freire”, online, que começa em abril e vai até maio, acesso democrático de estudo do alto alcance dessa pedagogia. Deixamos o link a seguir. Na celebração do centenário de Paulo Freire, registre um marco também na sua vida.

Acesse o site e confira: www.eadfreiriana.org/curso-cacpf-2021

Curso ‘Como alfabetizar com Paulo Freire’
Módulo 1 – 5 a 21 de abril
Módulo 2 – 4 a 28 de maio
Acesso à plataforma até 28 de agosto

Por Gleice Carvalho