Um mergulho de felicidade na primeira infância

Por Gleice Carvalho

Era para ter sido um simples estágio, etapa necessária, ou melhor, obrigatória, no plano de ensino do curso de Pedagogia, terceira graduação depois do jornalismo e radialismo. Minha intenção inicial era bem clara: o mestrado em Educação, que vinha sonhando há tempos, estimulada pela vida e obra de um educador japonês do início do século 19, que ousou defender a educação como forma de felicidade plena. Em plena época militarista do país onde vivia, era de fato um ato de ousadia, o que lhe custou a morte na prisão. Tsunesaburo Makiguchi (1871-1944) é minha maior inspiração e por isso decidi mergulhar nos estudos de outros educadores, de todas as vertentes e de todos os países. Li aqui e ali, mas a decisão pela graduação em Pedagogia resumia meu desejo: mergulhar no conhecimento dos que vieram antes de nós. Nas primeiras aulas fui me apaixonando por cada história de vida de educadores de suas épocas, abrindo fronteiras, quebrando paradigmas e fincando suas crenças. Lendo e separando na minha caixinha dourada do mestrado tão sonhado que faria na sequência.

Confesso que até aí, maravilhoso plano de ensino e conteúdos tão profundos, me alimentando o ser. Mas o estágio, como assim? Obrigatório? Me dei conta então de que a exigência se cumpria e dentro da minha grade de um ano e meio, o primeiro semestre me faria entrar numa sala de aula de “pequeninos”, e atentamente observar o dia a dia de professores e sua atuação.

No meio do corre-corre da vida, deveria me ajustar e passar “100 horas” no ambiente da educação infantil, que compreende crianças de zero a quatro anos. Como já estava cursando, e queria esta graduação para fortalecer minha base para mestrado, fui em busca de escolas desse nível de aprendizado.

Seguindo orientação, procurei mesclar entre escolas públicas e privadas. Depois de muitos e-mails, ligações, negativas de toda ordem fui aceita em três unidades, duas em São Paulo e uma terceira em Minas, na cidade onde nasci, Boa Esperança. Teria de dividir esse estágio, para compor com minha rotina de trabalho, que envolvia atender clientes nos horários “deles” e viagens, em São Paulo e Minas, alternando nas semanas. Foi uma aventura desafiadora entre agendas e locomoção, sem perder a disposição, pois ao final deveria apresentar relatórios minuciosos, assinados e carimbados pelos gestores das instituições

Criatividade circular

A Escola Circular, no bairro da Vila Mariana, adaptou a estrutura de um sobrado e instalou sua unidade, com poucas crianças, assistidas por uma equipe de profissionais e especialistas. Seu método concentra aprendizados na linha de Maria Montessori e Emmi Pikler. Carinho, cuidado e a criança no centro do processo de aprendizagem. Há um tanque de areia e mini bosque, onde as crianças interagem com a natureza, faziam oficinas de argila, se sujavam e imediatamente trocadas. Nas salas bem equipadas, o ambiente mudava para os jogos e brincadeiras, com variadas peças à disposição. Depois aulas de inglês, dança e almoço servido em mesas com até cinco crianças, bem assistidas. Em um dos horários, a visita aberta a pais nas salas e outras acomodações, espaço livre para o ser e aprender. Automotivação e fluxo renovado…circular processo. E assim, 30 horas de acompanhamento, fotos e relatório detalhado concluído.

Encontro da esperança

A maior parte do meu estágio se deu na escola pública localizada no bairro do Pari. Uma recém criada creche conveniada da prefeitura paulista. Também um sobrado adaptado, com pequenas outras áreas de lazer na parte térrea. Um parquinho, alguns brinquedos e o refeitório, local onde as refeições eram servidas por sala. Diferente da Circular, aqui um professor dava conta com mais um auxiliar de cerca de 20 crianças. Um desafio que me fez suar só de assistir. Passei por alguns níveis de idade, mas acabei me concentrando na turminha de 3 a 4 anos, pois queria absorver melhor o processo de continuidade das aulas.

Minha função era apenas a de observar, sentada no fundo da sala, caderno na mão. Mas ali aconteceu o inesperado, desta vez para o “meu” processo educativo. A educadora, bem jovem, vestia um avental vermelho cheio de bolsos, de onde puxava vez e outra um dedoche, um pincel colorido, algo que pudesse chamar a atenção da barulhenta sala. Crianças naquela fase de falar/andar de um lado para outro, irrequietas. Ela passou a contar a história do João e o pé de feijão, e dos bolsos saltavam os personagens. Da lateral da sala, via-se uns vasinhos improvisados para depois serem plantadas sementes. Era a história ganhando vida, o que para mim estava indo no normal ritmo, mas observei que uns cinco garotinhos no final da sala estavam quietos, sem interagir, cabisbaixos. Pareciam não estar ali. A aula seguiu e me concentrei neles, absortos, sem a menor reação às perguntas divertidas da história.

Até que a educadora, finalizou a aula e talvez por perceber minha inquietação, ligou a TV e colocou um vídeo musical. Não bastaram três segundos e os garotinhos quietos se levantaram num salto. E cantaram e dançaram com tanta alegria que tive depois de sondar a música – Baby Shark que confesso não conhecia. Deixei registrado e fui perguntar à professora a razão do “sucesso” daquela simples atitude. Foi quando ela revelou a origem daqueles pequenos.

A área centro da cidade de São Paulo, colada ao CEI no qual agora estagiava, registra os maiores índices de refugiados e suas famílias. Venezuela, Bolívia…estão entre os mais presentes ali naquela sala, pequenas vidas que tiveram arrancadas de si seus lares, sua vida em outro país. Não falavam, nem entendiam o português, portanto a única comunicação que tinham naquele momento era por meio da música. Baby Shark representava sua unidade com os demais, poderiam dançar, rir e abraçar. Estavam sendo entendidos em sua essência, e a educadora buscava por meio dessa ferramenta gerar seu entrosamento, enquanto aprendiam a nova língua.

Saindo dalí, depois de dias e muita observação, me concentrar numa nova visão dos aprendizados integradores, a própria linguagem descoberta e trabalhada por nossos célebres Piaget, Montessori, Freinet, Decroly e alguns outros. Eu os vi sentados alí, observando os desafios da educação dos anos 2000 ainda tendo de fazer o papel do governo e suas sociedades em oferecer proteção, carinho e principalmente uma visão de esperança a crianças como aquelas que pude conhecer por alguns dias.  Qual será o futuro delas? Quais crenças estão se solidificando no coração de cada uma?

Com aqueles minutos de “felicidade” que vivenciei aos ver aquela sala unida na diversidade, eu também mudei. O elo invisível com aqueles garotos recém chegados ao Brasil com suas famílias, muitas morado em abrigos, fortaleceu meu amor pela Educação e o “pensar na primeira infância” deixou de ser mero estudo. O mergulho nas possibilidades de garantir cidadania plena a crianças, agora será meu. Assim como visualizava Makiguchi “é a fase na qual se estabelece o amor ou o ódio no coração”, que possamos ser a luz do amor, por meio de nossa especialização. Na base da Pedagogia, que sejam respeitadas como seres que constroem seus próprios saberes, tendo sempre o estímulo social, cognitivo e visão de futuro. Que sejam vidas cultivadas com muito amor, e talvez por isso a CEI que me abrigou nessa fase de estágio tem como nome: Luz da Esperança.

 

Agradecimento – Estágio concluído com total êxito, graças ao apoio da Escola Circular e CEI Luz da Esperança, das gestoras Alana e Renilde, respectivamente. Por conta da proteção de imagens, não postamos fotos das crianças em sala.