A Educação é transformadora. Foi assim comigo e tenho certeza de que meus alunos honrarão o legado: a gratidão é tudo, pela natureza, pelo outro, pela vida.

Daisy Partal, mãe, educadora, voluntária como missão

O quintal da casa de Daisy foi invadido pela natureza, espaço onde passou a cultivar mudas de legumes, hortaliças, frutas e flores. Mais parece o lugar encantado de filmes infantis, de onde em breve sairão voando para o jardim de outros e especialmente, agora para a mesa dos que mais precisam.


As mudas são de árvores frutíferas e foco nas da Mata Atlântica.Tem de tudo um pouco… mamão,pitanga,laranja, limão, abacate, manga, amora…é uma variedade incrível. Mas o que a motivou?

A ideia surgiu há tempos, sendo cristalizada na sua trajetória de vida, à base de estímulos de amigos voluntários e uma especial provocação.

Essa paulista de 54 anos foi merendeira em escola pública por uma década, inicialmente cumprindo suas tarefas cotidianas até que se engajou nas ações voluntárias do Departamento Ambiental da Brasil SGI (à época Depto de Cientistas), com atuações voltadas ao estudo e aplicação de conceitos humanísticos em projetos ambientais. Foi o primeiro passo. Aos poucos uniu entendimento e disposição própria e partiu para colocar em ação no seu local de trabalho.

Na conscientização ambiental sabe-se que os resultados são lentos, pois dependem de tirar as pessoas de sua zona de conforto e fazer a coisa acontecer, de forma natural. Mas a resiliência integra o DNA de Daisy, que no trabalho de formiguinha conquistou simpatia e confiança. E o empurrão certeiro chegaria para somar, de dentro de sua própria casa. “Eu achava que já estava fazendo muito até, mas precisei ser desafiada”, lembra.


A provocação veio do filho, Leandro. Ele, aproveitando-se daqueles momentos em que “devolvemos a alguém algo que sempre nos deu”, plantou no coração da mãe o objetivo de seguir em frente nos estudos. “Sempre fomos motivados por ela a criar a realidade que desejávamos, e recebendo muito carinho e apoio em tudo. E no fundo já sabia o que desejava fazer e, mais do que isso, era totalmente capaz. Eu só dei um “empurrãozinho”:  era o destino que ela já havia determinado, tenho certeza. “

A decisão de fazer Geografia estava clara, uma relação criada pelo contato tido com a visão revolucionária de um educador japonês da década de 1930, Tsunesaburo Makiguchi. “Foi minha inspiração porque tudo que li sobre ele, a forma como educava e acreditava nas crianças, no valor de cada uma. Eu queria fazer o mesmo, educar baseada no princípio de que todas as pessoas têm um precioso valor interior, só precisa ser despertado”.


Com convicção fortalecida, a parte final dos anos como merendeira agora ganhavam a luz do conhecimento humanístico, vindo do período em que dividiu suas noites com as aulas na faculdade e nos finais de semana  com os amigos ambientalistas. “Foi cansativo, mas sem esforço não chegamos a nenhum lugar. Valeu cada noite mal dormida”, reforça Daisy, formada pela Faculdade Camilo Castelo Branco, no bairro de Itaquera, zona leste da capital.

Concretude –  Seu orgulho maior foram os resultados conquistados nesse período como merendeira. Conseguiram combater o desperdício, redução de resíduos em 90%, materiais reciclados e entregues a coletores da vizinhança. Numa ação sinérgica, alunos e suas famílias passaram a entender a importância de tratar os resíduos domésticos. Foi também montado um erbário na escola e os alunos cultivavam plantas medicinais, exemplo que usou inclusive no trabalho de conclusão de curso. Agora, professora de Geografia, Daisy Partal.

Seus sonhos ganharam asas, para nova escola, novas ações voluntárias e trabalho com menores. O mundo ficou pequeno para ela.  Em 2010 passou num concurso público e integra desde então a Fundação Casa, que abriga menores em conflito com a lei. Tudo em paralelo ao trabalho como efetiva numa escola estadual, posição que ocupa de 2014 para cá, lecionando para alunos do Fundamental II (6º ao 8º ano). Tanto na escola como na Fundação, sustentabilidade e meio ambiente são foco de projetos e interações.


Ampliar visão –  Quem é voluntário sabe, uma vez mordido pelo “bichinho” do “posso ajudar?” sempre há espaço para mais um no coração. Daisy passou a levar alegria e descontração em hospitais e abrigos, como o Lar das Mães, situado em Capão Redondo, bairro da zona sul da capital paulista. Para chegar até lá, ela sai de casa às 5 da manhã, percorrendo três horas de trajeto, encontrando-se com outros voluntários. Mas vale a pena, como enfatiza, pois esse lar recebe mães e filhos da Cracolândia. “Eles precisam de muito amor para vencer seus dramas de vida”, ressalta.

Um amor que transformou-se em fermento nos objetivos sociais de Daisy. Ao sair de uma de suas atuações, na hora do almoço, viu as crianças comendo arroz puro. “Como num país como Brasil, com tanta terra, onde tudo que você joga no chão brota…crianças comendo arroz puro?”. Essa indagação aqueceu sua mente. Não podia ficar parada.


A receita do amor resiliente ganhou vida. Voltou para a escola onde leciona e compartilhou seu sentimento com os alunos. Como há espaço para projetos dentro do Eletivas, nova modalidade na rede estadual de educação, surgiu o “Horta na escola”, com o cultivo sendo direcionado para idosos do Lar Mãe Mariana, na cidade de Poá, onde fica a escola.  Os próprios alunos lançaram suas sugestões das mudas que seriam indicadas para os idosos, a princípio verduras e legumes, de rápida colheita. E sem que houvesse nenhuma ordem de comando estavam eles discutindo entre si e gerando interação com o projeto.
“Eu fiquei muito emocionada quando vieram até a lousa e fizeram a lista. O poder da educação é muito forte. Foi uma escolha como cidadãos, sentindo-se parte dessa sociedade. “ Os alunos também já se integraram na coletiva seletiva dentro da escola, e em suas casas.


Com a interrupção das aulas, pela pandemia do coronavírus, o projeto está tendo de esperar. Mas a semente plantada no coração da turma de 36 alunos da “Pro Daisy” já tem todo o potencial de uma frondosa árvore, cujos frutos serão colhidos pela nossa sociedade. Parte hoje, parte daqui a alguns anos. Não importa. Em floração, frutos de empatia, solidariedade, comprometimento, amor à vida. E tantos outros.


Quando se fala dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs) uma visão estreita pode nos levar apenas ao que países e governos estão a fazer. Mas o exemplo da Daisy está aí para mostrar que é bem próximo. Até 2030, prazo definido pela ONU para que a humanidade se assente na sua responsabilidade diante da vida na terra, não há nada mais estimulante. A semente é o mais importante.
Assim como nas palavras do pacifista Daisaku Ikeda, 91 anos,  “A educação é um privilégio humano, fonte de inspiração para despertar a humanidade nas pessoas e capacitá-las a viver de forma criativa com serenidade e confiança. A educação é a força propulsora para a mudança social.(revista Terceira Civilização, Editora Brasil SEikyo, ed.537)

 Parabéns Daisy, pelo exemplo inspirador. Ativando com suas ações alguns dos principais ODS (1/2/4/10/12/16/17). Você integra a #cidadaniaods2030

 

E você, conhece algum exemplo de pessoa inspiradora ativando os ODS? Conta pra gente: pautas@agenciaculturadepaz.com.br