Universitários paulistas dão exemplo de cidadania

É gratificante ter um propósito baseado na transformação positiva da sociedade, por meio de nossa atuação acadêmica. Todo esforço é recompensado, e jamais será em vão.” –   Cauê Conterno Barreira

   Aos 28 anos, esse jovem paulista tem um currículo universitário de quem sabe exatamente aonde quer chegar.  Idade pouco maior que a Nobel da Paz 2018, Nadia Murad, iraquiana que foi escrava sexual do Estado Islâmico em 2014, Cauê é um universitário brasileiro que decidiu fazer a diferença em sua geração, desta vez por meio do diálogo. Graduado em Engenharia Mecatrônica pela POLI-USP, e atualmente mestrando do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Mecânica da POLI-USP, bolsista do Capes.

Os últimos oito anos dentro de uma das mais importantes universidades do mundo lhe renderam uma lição estimulante: “Temos o potencial de criar nosso próprio tempo, ainda que pareça que precisaríamos de 50h diárias”, sorri Cauê, ciente da dura maratona que cerca a vida universitária, não só dele, mas de outros jovens.

Inspirados por ele estão promovendo encontros de diálogos e debates sobre a Paz, integrando alunos USP – Universidade de São Paulo, de vários cursos, formando um polo interno, pequeno no tamanho, mas gigante em sua proposta de difundir o humanismo com suas próprias ações.

Em dezembro passado, mês em que comemoramos os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, um alento ver jovens criando um novo tempo para a Paz.

 

Modelo de vanguarda

A iniciativa ganhou forma em 2011, quando em seu segundo ano de USP Cauê se juntou a outro aluno da Poli, Renan Iwayama, que lhe acenou com a proposta de reunir os amigos que conhecia no campus e que compartilhavam dos mesmos ideias humanistas.

Ideais esses cultivados dentro da Brasil Soka Gakkai, braço no país da SGI, vinculada à ONU e atuante em ações pela paz, cultura e educação. Tanto Cauê como Renan formavam o Departamento Universitário (DUNI) da Brasil SGI, celeiro de encorajamento para criar valor a partir de suas próprias convicções e atitudes em prol de uma Cultura de Paz.

“Éramos cinco, mas com uma união e sinergia muito fortes”, comemora Cauê, que já no ano seguinte via chegar à USP o primeiro evento sob a chancela do polo. Conseguiram trazer a montagem da Exposição “Sementes da Mudança”, seguida da palestra “Coragem e Valores Sociais”.

  A exposição pôde ser vista nos três anos seguintes, e incorporadas novas temáticas como o vídeo “Revolução Silenciosa”, seguida de debates.

Em 2015 foi a vez de uma Pesquisa Humanista na Universidade, evento com foco em compartilhar pesquisas dos próprios membros do Polo, das mais diversas áreas, que continham um viés humanista.

E a Palestra “Revolução Humana: Transformar a realidade pessoal e a da sociedade a partir da sua mudança interior” (V Retiro do Programa de Pós-Graduação de Biologia Celular e Tecidual do Instituto de Ciências Biomédicas da USP-ICB / 2016)

 

No ano passado, a força de intenção do grupo de universitários culminou na edição da primeira PROPAZ, uma semana de atividades no campus. A Semana de Propostas de Paz da USP foi totalmente organizada pelo núcleo, voltado a alunos, funcionários, professores da universidade.

“Tivemos como base a Proposta de Paz do humanista Daisaku Ikeda, enviado à ONU no início do ano. Estudamos e juntos dividimos os temas e palestras. Foi uma grande experiência”, relembra Cauê.

 

E os reforços foram chegando. Estimulados pela proposta de debater tendências humanistas para questões globais, a turma passou dos cinco iniciais para 60 integrantes, dos mais variados cursos.  “É incrível como conseguimos dar conta de tudo, pois a vida de estudante é bastante corrida. Nos propomos também a ser os melhores em nossas bases de estudo na universidade.” O envolvimento e amizade criados foram capazes de gerar uma gestão sustentável. A estrutura de liderança conta com dois responsáveis, dois secretários e três membros na secretaria. Uma delas chegou este ano, a Mariana Borsari.

Aos 20 anos, indo para o terceiro ano de Oceanografia, Mariana se empolgou com a proposta.  “Fui convidada para ir num dos encontros, e me identifiquei logo de cara com as ideias apresentadas na Proposta de paz. A partir daí com o apoio principalmente do Cauê, Ian e do Jimmy, já me integrei e hoje posso colaborar de forma efetiva, junto com todos. Quando se afina com um propósito tudo faz sentido”, reforça Mariana, auxílio presente na organização dos eventos que o Polo USP da Brasil SGI desenvolve por lá. Tudo em plena sintonia com os ODS – Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

A Propaz 2018 ocorreu em outubro, no auditório do Instituto Oceanográfico. Desarmamento nuclear e degradação climática e o direito à educação para minorias e refugiados foram alguns dos temas, extraídos da Proposta de Paz enviada à ONU pelo Dr. Ikeda. Intitulada “Rumo à era dos direitos humanos: construindo um movimento popular”, o documento de mais de 50 páginas que foi estudado e apresentado no evento trata também sobre o empoderamento feminino e o papel de cada um, cidadãos comuns, na geração de um ambiente de paz social, por meio do diálogo.

O polo desenvolveu tudo: desde as palestras, divulgação interna e convites a palestrantes. “Conseguimos solidificar internamente o Polo, focando na criação de valores.  E esse aspecto é de suma importância, uma vez que a permanência dos indivíduos na universidade é muito curta. Agora, o foco é poder expandir nosso movimento para toda a comunidade USPiana, priorizando os eventos abertos a toda a sociedade.”

“Queremos propiciar que essa nossa geração tenha contato com estímulos humanistas e os apliquem em seu palco de atuação. Acredito sem dúvida que isso trará grandes frutos para um futuro melhor, para todos.”

Ver jovens estudantes agindo por sua própria vontade, em meio aos desafios da graduação, fortalecendo laços de amizade e esforços humanistas, traz uma inspiração que não está nos livros, mas sim em seus corações. Que venham mais polos universitários. Parabéns vanguardistas.

Gleice Carvalho/ACP