Nobel da Paz 2018 – Em defesa dos direitos das mulheres

Imagens do Twitter da organização

Mais de 30 mil mulheres, vítimas de violência sexual, foram tratadas por ele. Denis Mukwege, médico ginecologista do Congo, de 63 anos, entra pra história como um dos vencedores do Nobel da Paz deste ano.  Por sua iniciativa e apoio da Unicef e outros doadores montou um hospital com 350 leitos, uma unidade de atendimento móvel e um sistema para oferecer microcrédito para as vítimas reconstruírem sua vida. A seu lado, também reconhecida, está a jovem Nadia Murad, 25 anos.  Iraquiana da minoria yazidi,  passou três meses como escrava sexual do Estado Islâmico em 2014. Seus pais e irmãos foram mortos. Após fugir dos fanáticos, se tornou uma ferrenha defensora dos direitos humanos e já em 2016 foi nomeada embaixadora da Boa Vontade da ONU para a Dignidade dos Sobreviventes de Tráfico Humano.   Ambos, Mukwege e Nadia, receberam o prêmio por seus esforços para acabar com o uso da violência sexual como arma de guerra e conflito.

O Prêmio Nobel da Paz existe desde 1901, reconhecendo pessoas e instituições que se destacam pelo compromisso ético e de efeito sócia. No twitter da organização, os aspectos considerados na escolha deste ano:

O princípio básico de Denis Mukwege é que ‘a justiça é da conta de todo mundo’. O Prêmio Nobel 2018 é o símbolo mais importante e unificador, tanto nacional como internacionalmente, da luta para acabar com a violência sexual na guerra e nos conflitos armados”.

Nadia Murad é a testemunha que conta sobre os abusos perpetrados contra ela e os outros. Ela mostrou coragem incomum em relatar seus próprios sofrimentos e falar em nome de outras vítimas”.

Lendo as reportagens sobre o Nobel deste ano, inúmeras foram as leituras que trouxeram à baila uma frase que fixei em minha mente, de autoria de Daisaku Ikeda:

 

 No coração dos direitos humanos está o compromisso de jamais permitir que mais ninguém sofra o que alguém já sofreu. “

 

Esse pacifista, do alto de seus 90 anos de idade, é um conhecido de décadas. Me inspirou a estudar filosofia, educação e a dedicar minhas energias para difundir esperança e convicção no potencial humano para a paz.

Ele viveu os horrores da guerra, em sua tenra juventude. Pela falta de respostas a seus questionamentos, aos 19 anos encontrou alento nas convicções de um professor, que o tratou como filho. O treinou para não só superar a dor de ter perdido o irmão na guerra, a saúde precária e a falta de perspectiva no futuro de seu país. O inspirou a ser o que se tornou ao longo dos anos: um embaixador da paz.

Fundou universidades, museus e é fonte de incentivos para milhões de pessoas ao redor do mundo, reunidos na SGI – Soka Gakai Internacional, vinculada à ONU e com assento em várias comissões internas, como a de refugiados.

Desde 1975 envia anualmente proposta de paz à ONU. São longos tratados e a frase destacada, que me inspirou nesse texto — “No coração dos direitos humanos está o compromisso de jamais permitir que mais ninguém sofra o que alguém já sofreu. “ –, vem em plena sintonia com os vencedores do Prêmio Nobel, dois exemplos de vida que suportaram ambientes hostis, sofrimento que o tornaram ferrenhos defensores dos direitos humanos.  Um legado construído com seus próprios esforços,  onde passaram a ser voz, braços e coração dos que sofrem.  Agora reconhecidos pelo mundo.

70 anos da DUDH -plena sintonia  

No mês que celebramos os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), outro bom exercício foi observar que as legislações que deram origem à sua criação trazem exemplos reais de vida. São os que por sofrerem ataques ou verem seus direitos arrancados de suas mãos sabem dar peso, em ações destemidas, para fazer valer o precioso e único bem da humanidade:  liberdade e respeito, independente de qualquer coisa.

A  (DUDH), que delineia os direitos humanos básicos, foi adotada pela Organização das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948. Foi esboçada principalmente pelo canadense John Peters Humphrey, contando, também, com a ajuda de várias pessoas de todo o mundo. Vale a pena saber um pouco mais.

Abaixo alguns trechos da proposta de paz deste 2018, enviada em janeiro pelo Dr Ikeda. Em destaque aqui, dois trechos, relatos de vidas e lições que a humanidade jamais deve prescindir e que dizem respeito ao tema.  Vamos à leitura:

… o Dr. Humphrey pessoalmente me enviou uma cópia do rascunho da declaração, cada letra redigida parecia brilhar com a oração de alguém que planta sementes para um futuro em que todos vivam com dignidade.” – Daisaku Ikeda, referindo-se ao Dr.John P. Humphrey, que auxiliou no texto da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

 

“…A DUDH, adotada em dezembro de 1948, três anos após a fundação da ONU, foi a cristalização da sabedoria obtida com essas amargas lições. É vital, então, que uma vez mais confirmemos o espírito da declaração, a fim de encontrar uma resolução para as diversas questões de direitos humanos que enfrentamos hoje, inclusive a discriminação contra migrantes e refugiados. Em junho de 1993, tive a oportunidade de conhecer o Dr. John P. Humphrey (1905–1995), que ajudou a elaborar a declaração na qualidade de primeiro diretor da Divisão de Direitos Humanos da ONU. Ao discutir o significado da DUDH, o Dr. Humphrey contou com emoção suas experiências pessoais e o tratamento discriminatório que enfrentou. Nascido no Canadá, o Dr. Humphrey foi afetado pela tragédia desde muito jovem, ao perder os pais para a doença. Ele também sofreu lesão grave em incêndio que resultou na perda do seu braço. Separado dos seus irmãos, frequentou um internato onde foi repetidamente atormentado por outros estudantes.  A Grande Depressão surpreendeu o Dr. Humphrey logo após a sua graduação na universidade e há apenas um mês do seu casamento. Embora conseguisse permanecer empregado, ficava aflito ao ver ao redor uma multidão de desempregados. Testemunhou também, como pesquisador na Europa no final da década de 1930, em primeira mão, a opressão fascista durante seus dias, o que intensificou sua percepção da necessidade de proteção jurídica internacional para os direitos de todas as pessoas.

Certa ocasião, Dr. Humphrey expressou seu orgulho por ter a DUDH garantido não só os direitos civis e políticos das pessoas, mas também seus direitos econômicos, sociais e culturais.  Estou certo de que seus antecedentes pessoais e experiências de vida tiveram grande influência em seu trabalho para ajudar a elaborar e compilar a declaração. Ele deixou claro que a DUDH foi o resultado de um esforço em colaboração e que uma parcela do seu prestígio e importância se devia justamente ao fato de seus autores terem mantido o anonimato. Talvez seja por isso que suas contribuições permaneceram em grande parte desconhecidas, mesmo após se aposentar da função que exerceu como diretor da Divisão de Direitos Humanos da ONU por vinte anos.

Mesmo assim, quando o Dr. Humphrey pessoalmente me enviou uma cópia do rascunho da declaração, cada letra redigida parecia brilhar com a oração de alguém que planta sementes para um futuro em que todos vivam com dignidade. Ao longo dos anos, a SGI apresentou este rascunho da DUDH como parte de sua exposição Toward a Century of Humanity: An Overview of Human Rights in Today’s World [Rumo ao Século do Humanismo: Um Panorama dos Direitos Humanos no Mundo Contemporâneo] e em outros eventos semelhantes. Encontrei-me com o Dr. Humphrey pela segunda vez em setembro de 1993, durante a primeira exibição internacional dessa mostra em Montreal, Canadá. A promessa que fiz para ele naquele dia — transmitir o espírito da Declaração Universal às futuras gerações — ainda permanece em meu ânimo em defesa da paz.

 

 A bondade do homem é uma chama que pode estar escondida, mas nunca extinta.”  – Nelson Mandela

“…  Além da adoção da DUDH, o ano de 1948 também viveu o início das políticas de segregação racial na África do Sul conhecidas como apartheid. Nelson Mandela (1918–2013), posteriormente presidente da África do Sul, transformou seus sentimentos de raiva e tristeza contra a injustiça e a discriminação que enfrentou na luta para desmantelar o apartheid. Tive o prazer de conhecer o presidente Mandela em outubro de 1990, oito meses depois da sua libertação da prisão.

Em sua autobiografia, ele descreve seus motivos e seu impulso para se comprometer com a luta pela liberdade ainda na juventude: O acúmulo constante de milhares de manifestações de menosprezo, de milhares de indignidades, de milhares de momentos esquecidos, produziu em mim uma raiva, uma revolta, um desejo de lutar contra o sistema que aprisionava meu povo. Apesar do tratamento brutal que sofreu na prisão, o coração do presidente Mandela nunca foi tomado pelo ódio, porque, mesmo nos momentos mais angustiantes, ele se agarrava à “centelha de humanidade” que via nos guardas e usava isso para seguir adiante. Ao sentir que nem todos os brancos odiavam os negros, o presidente Mandela se esforçou para aprender africânder — idioma falado pelos guardas da prisão — e conseguiu tocar o coração deles falando em sua língua materna.

Mesmo o despótico administrador da prisão demonstrou, pela primeira vez, um pouco de carinho por Mandela quando estava deixando o cargo. Com essa inesperada experiência, o presidente Mandela entendeu que a constante crueldade do administrador da prisão estava enraizada no fato de que “seu comportamento desumano lhe fora imposto por um sistema desumano.”  Durante os seus 27 anos — cerca de 10 mil dias — de prisão, o presidente Mandela cultivou uma inabalável convicção de que “a bondade do homem é uma chama que pode estar escondida, mas nunca extinta.” Após a sua libertação, como presidente da nação, tomou medidas para proteger a vida e a dignidade de todas as pessoas, negras e brancas igualmente.

Uma vez, quando a ira contra os brancos na comunidade negra foi impulsionada por outro massacre de negros por um grupo de brancos, o presidente Mandela não usou simplesmente de frases feitas para apelar pela harmonia. No meio de um discurso de campanha, ele de repente chamou uma mulher branca que estava de pé ao fundo da plateia e pediu-lhe que subisse ao palco. Sorrindo, ele a apresentou à multidão como a pessoa que cuidou de sua saúde quando ficou doente na prisão. Não é a diferença de raça que constitui o problema. Pelo contrário, o problema é o que está no coração humano. O ânimo do público mudou ao entender a mensagem e o impulso para a vingança diminuiu.

As ações do presidente Mandela naquele momento parecem revelar que ele sabia muito bem, e de forma dolorosa, como as amarras de um sistema desumano podem roubar a humanidade de alguém.”

Gleice Carvalho/ACP

 

 FONTE:  A íntegra da Proposta de Paz 2018 de Daisaku Ikeda: “Rumo à era dos direitos humanos: construindo um movimento popular”, pode ser lida aqui. São mais de 50 páginas, tema atual e empolgante para estudiosos da paz e dos direitos humanos. Acesse: http://www.culturadepaz.org.br/media/propostas/proposta_paz2018.pdf