“Ter em mente a sua realidade e a dos outros. E saber que juntos somos mais. Sonhar, realizar, não desistir.”    Bruno de França Correia

 

Ah a juventude tem dado sinais de uma maturidade inspiradora. A frase acima vem de um jovem, 19 anos, estudante universitário que vem plantando sonhos universitários na cabeça de muitos outros jovens.  Disposição não lhe falta.  Cursa o 3º ano de História na Unifesp – Guarulhos, trabalha como professor monitor na EMEF Virgílio de Melo Franco, é plantonista no Hexag Vestibulares e faz  estágio na Fundação Memorial da América Latina.

E em meio a tudo isso lá está Bruno aos finais de semana, e outras vezes durante as agendas em dias normais, na coordenação de um cursinho pré-vestibular comunitário, na zona Leste de São Paulo.  Agora em junho, comemora dois anos de atividades, com sabor de vitória. De um nobre propósito. “Quero poder ajudar as pessoas, compartilhando conhecimento e retribuindo com as mesmas oportunidades que recebi. Estou muito feliz”.

 

 

Vamos ao case:

O desejo de ser e tornar-se útil começou cedo na vida de Bruno Correia, construído pelos dois alicerces do saber. Primeiro a família. “Meus pais foram os meus maiores veteranos. Sempre me incentivaram num caminho humanista. Me deram a oportunidade de poder estudar, e estímulo para me dedicar na ação voluntária.”

O segundo exemplo veio de uma educadora. Em 2013, Bruno estudava o Médio numa escola pública (Etec) da Zona Leste da Capital. Lá conheceu Leila Regina de Souza, professora de Filosofia. “Ela tinha um jeito especial, criativo, de realizar as atividades em aula. Nos orientava com humanidade,  e isso ficou gravado.”

De olho na graduação, mas sem condições de pagar um cursinho, logo que acabou o curso técnico, em 2015, encontrou um núcleo em seu bairro, o Cursinho Popular Mafalda. Bruno não só passou no vestibular, como decidiu retornar ao ponto de origem. “Tive enorme desejo de fazer parte da equipe e poder retribuir de alguma forma a ajuda que tive dos professores e equipe gestora do cursinho.”

Bastaram algumas semanas e a coordenadora do Curso Mafalda, Talita Amaro,  lhe acendeu com a chance de apoiar a criação de mais cursinhos populares. Juntos visitaram o potencial local, o CEU Vila Curuçá, recebidos pela equipe gestora.

Faltava a escolha do nome do novo polo. A decisão veio do coração, justamente o da professora Leila, aquela que plantou sementes na mente e coração do jovem Bruno. “Ela faleceu de câncer em 2014, pensei nessa homenagem para que seu nome e história de vida fosse sempre lembrado aqui”.

    A gratidão é um dos mais nobres sentimentos, e ouvir isso de um jovem ainda mais significativo. “Nasci em uma família que tem como base de vida a filosofia humanista da Soka Gakkai Internacional. Cresci em meio ao incentivo da importância da educação, da gratidão acima de tudo”, frisa Bruno, que aos finais de semana ainda encontra tempo para dedicar-se nas atividades do núcleo universitário (DUNI) da RM São Miguel, integrante da Brasil SGI. “ Agradecer sempre e poder servir ao outro. Isso faz parte de mim. ”

 

PORTAS ABERTAS –  A divulgação correu as mídias digitais e as 60 vagas iniciais de 2016 preenchidas em tempo recorde. A maioria dos alunos na faixa dos 16 e 17 anos, cursando o último ano do Médio. Era junho, e estava aberto o Cursinho Popular Leila Regina, sonho sendo edificado.  O conteúdo programático voltado a fortalecer as matérias para o Enem, e as matérias de peso dos principais vestibulares.

   Em 2017 as inscrições chegaram a 300 e neste 2018,  uma procura ainda maior. Filas gigantescas e o resultado: 523 inscritos para 135 vagas.  A vibração maior ficou por conta da adesão de ex-alunos e professores, novos voluntários sendo atraídos pela proposta. No primeiro ano,  12 voluntários. No ano seguinte, 2017, número triplicado. Foi o melhor resultado, sendo possível disponibilizar quase 300 vagas. “Fui incrivelmente bem recebido pelos integrantes do corpo docente e coordenação, eles me ofereceram total auxílio nas matérias”, comenta Mateus Miranda Souza, 19 anos, aluno da turma de 2017. “Por grande parte dos voluntários do Leila Regina serem ainda universitários e  uma realidade de vida parecida com a minha, isso ajudou muito. Passei a acreditar que seria possível conseguir também entrar numa faculdade.”

   De fato, Mateus entrou para História, na Unifesp, e hoje é um dos voluntários do projeto. “Sou muito agradecido por ter conseguido entrar na faculdade dos meus sonhos, no curso dos meus sonhos. Agora estou retribuindo aqui, ajudando outros jovens”.

A retroalimentação da ação voluntária é algo extraordinário. A Educação como mola propulsora do empoderamento de jovens, exemplo prático dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, aqui e agora. E consolida uma rede de pessoas comuns, oferecendo seu melhor. Entre os docentes atraídos pela proposta está Henrique de Oliveira, que ensina gramática aos alunos. “ Enviei currículo em 2016 para o Bruno e ele pediu pra que eu fosse ao Cursinho conversar e conhecer o projeto. Quando comecei a lecionar, eu vi que era um trabalho sério e que a comunidade contava com aquele trabalho como algo essencial. Sou muito feliz por fazer parte de um projeto capaz de ajudar centenas de pessoas a seguir mais um passo a caminho dos seus sonhos. Aprendo muito com os alunos. A maioria é muito dedicada e nos desperta o desejo de poder estar em sala de aula sempre para ajudá-los no que precisam.

  Os voluntários de 2018 atingem neste ano 50 pessoas, conseguiram aumentar atendimento para 200 alunos em aula. Aos sábados, das 8 às 16horas, no CEU Vila Curuçá estão os alunos que buscam um objetivo grandioso.  Novas vagas, só no novo período ano que vem.
Entre a equipe, expandiram-se horizontes e hoje conseguem dividir melhor as tarefas. “Nos dois primeiros anos do projeto, não trabalhava, dedicação 100% ao Cursinho. Agora passo todos os meus sábados pela manhã aqui, seja dando aula, acertando pontos da coordenação ou atendendo alunos e pais”, reforça Bruno.

Contabilizar os resultados do projeto é bem menos do que louvar o esforço e dedicação dos que fazem acontecer. A crença é da felicidade tamanha que a professora Leila Regina sentiria. O orgulho dos pais de Bruno e os amigos que vem conquistando, se juntando a ele nessa empreitada tão espetacular.

Por fim, ele dá seu recado aos jovens: “ Que não pare comigo. Outros alunos nossos possam criar cursinhos populares nos seus bairros. E que outras pessoas tornem-se protagonistas desse movimento em prol da educação.  Acredito que toda essa dedicação poderá um dia impulsionar a mudança do bairro e da cidade como um todo.Isso eu aprendi com meu Mestre, Daisaku Ikeda.

 

 

ACP/ Gleice Carvalho