“Por que me concentrei tão decididamente em encontrar uma solução para a questão nuclear? Porque, assim como Josei Toda compreendeu, enquanto houver armas nucleares, a busca por um mundo de paz e de direitos humanos para todos permanecerá inatingível”.

 

Palavras do pacifista Daisaku Ikeda, em sua Proposta de Paz enviada à ONU, assim como tem feito anualmente desde 1983, longos tratados, forte convicção no poder humano para a transformação de um século de guerra para um século de paz.   “ Rumo à era dos Direitos Humanos: construindo um movimento popular”, título traduzido, depois de sua divulgação nos Estados Unidos e no Japão, e que chega agora em português.   Aos 90 anos,  Ikeda tem em seu histórico de vida o fato de ter vivido de perto os horrores da guerra, o que fortalece o propósito principal da sua Proposta de Paz  2018, ano que marca o 70º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos:  “ Jamais permitir que mais ninguém sofra o que alguém já sofreu”.

   Encontro na UMAPAZ   —  A data não podia ter sido mais propícia. Marcar o dia 5 de junho, Dia do Meio Ambiente, para  um encontro de apresentação e troca de ideias sobre Direitos Humanos e Paz.

“ Se quisermos mesmo uma sociedade sustentável, é impossível imaginar que não venha fortalecer, reconhecer os direitos humanos, especialmente numa sociedade tão diversa de valores culturais”, disse o coordenador do evento, o sociólogo André Luiz Moura Alcântara . Especializado em Educação Ambiental pela FSP-USP e em Gestão Ambiental pela FEM-UNICAMP, atua na Secretaria do Verde desde 1993.  “ Hoje nessa inédita apresentação, vamos dialogar sobre como podemos chegar a esse ambiente equilibrado, respeitando direitos das minorias, direitos difusos em sua maioria.“

   A palestra sobre a Proposta de Paz 2018 do pacifista Daisaku Ikeda foi dirigida pelo sociólogo Wilson Ferreira, gestor do Núcleo de Estudos Filosóficos e Religiosos (Nefir) da BSGI. Logo no início, celebrou uma importante conquista para a questão nuclear, que foi o reconhecimento dado à Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares (Ican) no Nobel da Paz 2017. Uma coalizão da sociedade civil, sediada na Genebra (Suíça), exatos dez anos após sua formação em 2007. Como citado na proposta, a Ican foi reconhecida pelo seu “trabalho de alertar para as consequências humanitárias catastróficas de qualquer uso de armas nucleares” e por “suas inovadoras medidas para conseguir a proibição de tais armas respaldada por tratados”.

Essa aliança vem crescendo, e reúne desde janeiro deste ano cerca de 500 organizações não governamentais de 101 países, representando milhões de associados unidos pelo objetivo comum de um mundo livre da ameaça das armas nucleares.  A SGI – Soka Gakkai Internacional, liderada por Ikeda, e que representa cerca de 13 milhões de associados pelo mundo é, desde o começo, parceira internacional desse movimento para a concretização de um mundo livre de armas atômicas. “O Dr Ikeda louva essa conquista, que sem dúvida é um divisor de águas. Existem forças opostas que tentam levar a humanidade para o mundo da destruição.  Avanços ligados à tecnologia são respeitáveis, mas a paz se faz com a Educação”.

Na prática, enfatizou o sociólogo, observa-se que ao longo dos anos as pessoas de bem não conseguiam se unir. “As pessoas do mal, essas sim, se identificam facilmente e se unem com maior facilidade. É preciso reverter.”

Esta 36ª Proposta de Paz se centra então em resgatar a condição fundamental das pessoas para o bem. Condição inerente a todos, onde não se vê o outro como um inimigo. “ A proliferação das armas nucleares revela essa condição, de criar e manter forças, para destruição.”

 A GUERRA EM NÚMEROS  –  As iniciativas recentes de acordos de paz são apenas sinais de uma reversão de expectativa. O poderio é aterrorizador. Os USA e a Rússia juntos já tem pouco menos de 14.000 Ogivas nucleares!

 Existem cinco países que são detentores de ogivas nucleares, são eles;

  • China – tem 270 ogivas;
  • USA – tem 6.800 ogivas;
  • França – tem 300 ogivas;
  • Reino Unido – tem – 215 ogivas
  • Rússia – tem 7.000 ogivas.

Esses países assinaram um acordo que os proíbe de aumentar seu armamento nuclear e impõem que as armas que já existem sejam desativada e destruída, todas as ogivas e bombas são oficiais e tem registro, mas eles não podem usar e nem fabricar novas e não podem guardar para sempre.

Do outro lado nos temos:

  • Coreia do Norte – tem 10 ogivas;
  • Índia – tem 130 ogivas;
  • Israel – tem 80 ogivas;
  • Paquistão – tem 140 ogivas.

Todos sabem que esses países também possuem armamento nuclear, tão poderoso quanto os USA e a Rússia, só que eles não assinaram acordo nenhum e não tem nada que os impeça, tecnicamente de lançar um míssil quando bem entenderem.  Se qualquer um desses países decidir lançar um míssil intercontinental, não existe muito o que fazer, além de aguardar as consequências devastadoras. Os arsenais desses países que estão fora do acordo, somam juntos 360 armas nucleares.
No mundo inteiro existem 14.945 armas nucleares.
(Fonte: Armis Associeton Control – levantamento atualizado em 07/2017). 

 

       LAÇOS HISTÓRICOS –  Ao incluir o combate frontal às armas nucleares, o texto empolgante lança luz à dignidade da vida de cada pessoa, como foco para fazer valer de fato o direito à vida.   Embora legitimado em tratados desde 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos parece viver no papel. “É um direito inerente a cada ser humano viver em paz. Não está nesse ou naquele artigo da Declaração simplesmente, é nato. Cada um que ajudou a construir os termos da Declaração colocou ali sua história de vida, experiências e sofrimento que selam o compromisso de perpetuar a dignidade humana, acima de tudo.”   Um exemplo é o citado na proposta, sobre o  Dr. John P. Humphrey (1905-1995) que ajudou a elaborar a Declaração, na qualidade de primeiro diretor da Divisão de Direitos Humanos da ONU. Relato emocionado de suas experiências pessoais e o tratamento discriminatório que enfrentou. Vale a pena conhecer!

A Proposta de Paz do Dr Ikeda soa então como uma força de um para um, para que se extraia de cada individuo sentimentos como paz, harmonia , sabedoria, respeito à diversidade.  “ O outro não pode ser tratado como um inimigo, um concorrente, e por isso eu crio armas para destruí-lo.   A Educação para os Direitos Humanos é diferente da formal, é um exercício pautado no reconhecimento de que a vida é o bem mais precioso”, enfatizou o sociólogo.

“ …a bondade do homem é uma chama que pode estar escondida, mas nunca extinta”.

Nas quase 50 páginas da versão em português de seu tratado, Ikeda descreve seu encontro com Nelson Mandela (1918-2013), cerca de um ano após o líder africano ter saído da prisão, depois de 27 anos.

Uma extraordinária existência, alma polida pelo sofrimento, mas não manchada por ele.  A leitura a partir da pág. 21 do texto da Proposta nos leva a conhecer parte de sua metamorfose, do ódio à compaixão, transformando veneno em remédio.

Qual é o inimigo? Nenhum. Ele comprovou com a vida. Seu coração não foi tomado pelo ódio. Na prisão, ao sentir que nem todos os brancos odiavam os negros, se esforçou em aprender o idioma falado pelos guardas, com os quais criou laços de amizade, mesmo depois de sua saída após 10 mil dias encarcerado. Tempo que se permitiu olhar para o outro, em cada centelha de humanidade que percebia.

Todos nós nascemos como seres humanos, mas exercer essa humanidade tem uma distância. O problema não está na diferença de raça, mas no sentimento alojado no coração das pessoas.   “Já erramos muito. O que vai trazer para a ordem são as pessoas comuns. Não os artigos, não os sistemas. Mas cada pessoa de bem, unida a um propósito maior”,   reforçou Wilson.

 

DEFESA CENTENÁRIA PELA PAZ

“O movimento em favor da paz da SGI se origina nas convicções do presidente fundador Tsunesaburo Makiguchi (1871–1944) e do segundo presidente Josei Toda [1900–1958], que travaram uma luta de resistência contra o regime militarista do Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Em Jinsei Chirigaku [Geografia da Vida Humana], escrito no início do século 20, Makiguchi expressa sua preocupação com a situação das pessoas do mundo em meio à expansão do colonialismo.”  (trecho da proposta)

Ambos foram presos e Makiguchi não deixou a prisão com vida, diferente de Toda, libertado no pós-guerra. Sua saúde debilitada não foi barreira para fazer surgir a Soka Gakkai (Sociedade de Criação de Valor).  O que é capaz um coração que pulsa pela paz?  Parte dessa história é contada nessa Proposta 2018, pois é a origem de quase 100 anos pela dignidade da vida, e da erradicação da ameaça atômica da face da terra.   “E se o poder de destruição está nas mãos dos homens, também está inerente no homem o potencial máximo para a paz“, concluiu Wilson.

Há ainda outros destaques da Proposta, levando em conta a Educação para os Direitos Humanos, para fazer prevalecer a educação que cria esperança de futuro nos refugiados e seus filhos. Um direito.

E também no reconhecimento do papel da mulher na construção de uma cultura de Paz.  Não basta ser visível em um dos 17 ODS, mas uma vez empoderadas, serão as que garantirão a plenitude de todos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

 

  A íntegra da Proposta de Paz está em versão PDF no site da Brasil SGI.     Constam também as versões dos anos anteriores (desde 2005). Boa leitura!.  Clique aqui!

 Sobre a UMAPAZ – É um departamento da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo.  Constituída por  4 Divisões:  Escola de Astrofísica e Planetários  –  Ibirapuera e Carmo, Escola de Jardinagem, Divisão de Formação e Divisão de Projetos e Difusão em Educação Ambiental.

Sua sede é na Avenida IV Centenário, 1268. Portão 7 A do Parque do Ibirapuera.  Proporciona atividades de educação ambiental,  gestão ambiental e Cultura de Paz.  Todas gratuitas com inscrição online pelo site: www.prefeitura.sp.gov.br/umapaz
Sempre há uma programação mensal a quem se interessar!

 

ACP/ Gleice Carvalho