Esse texto fala da capacidade humana, às vezes perdida, de ouvir com o coração. Uma repaginada própria de um texto que li há bons anos, e guardei. E como tudo na vida, cada fase nos faz “ ouvir” melhor. Eis a fábula:
Um rei desejava preparar seu filho para se tornar uma grande pessoa, à altura de comandar seu reino. Mandou-o então estudar num templo. Lá chegando, o sábio mestre deu-lhe a primeira missão: ir sozinho ao bosque, onde passaria um ano. Deveria retornar depois e revelar os sons que ouvira em meio à natureza. Passado o tempo, o príncipe retornou e passou a descrever tudo que ouvira: “Mestre, nesse tempo todo pude escutar o canto dos pássaros, o ruído das folhas, o revoar dos beija-flores, o zumbido das abelhas, o som do vento cortando os céus.”.

Parecia convencido de ter ouvido tudo. Terminado seu relato, no entanto, o mestre pediu que retornasse, por mais um ano, e ouvir tudo que fosse possível. Intrigado, o príncipe obedeceu a ordem: “ Não entendo, não há mais o que ouvir lá”. Mas seguiu a ordem e passou dias e noites inteiras sozinho, escutando. Só que dessa vez, tirou seu foco do que lhe estava por demais visível e que já havia distinguido seu som. Eis que então começou a atentar-se para sons vagos, diferentes de tudo que havia escutado antes. E quanto mais prestava atenção, os sons tornavam-se mais claros.

Uma sensação de encanto o envolveu. Ficou ali dias, semanas e meses. Retornando ao templo, paciente e respeitosamente, o príncipe relatou: “Mestre, quando prestei atenção e abri meu coração, pude escutar o inaudível som das flores se abrindo, o som do sol nascendo e acalentando a terra e das ervas bebendo o orvalho da noite, ouvi a coragem dos troncos em se manterem firmes, e o esforço das águas ao abrir novos caminhos.”

O mestre, sorrindo,  assentiu: “ Você está pronto. Ouvir o inaudível é ter a calma necessária para converter-se numa grande pessoa. Saber escutar o coração das pessoas, seus sentimentos mudos, seus medos não confessados e suas inquietudes silenciosas. Assim pode inspirar confiança a seu redor, pois consegue entender o que se passa no interior dessa pessoa, e agir para dar ouvido às suas inspirações de vida. Um olhar diz tanto!
A morte de uma relação começa quando as pessoas ouvem apenas as palavras pronunciadas pela boca, sem prestar atenção nos sons que sua alma emite, grita às vezes.
Se você é gestor, pare e olhe para sua equipe e procure ouvir melhor. Saiba distinguir os elogios verbalizados por puxa sacos, sempre de plantão, dos que estão tentando te mostrar confiança, em vão.

Nem tudo se pode ouvir! Há o lado inaudível das relações humanas e de trabalho. É preciso ouvir com o coração, o lado não mensurável: o mais importante do ser humano. Os sons do silêncio. — Gleice Carvalho.